Minha avó, que saía pelo mundo e me levava junto nos ônibus que subiam a Rebouças, soube despertar desde muito cedo o amor por museus no meu coração de criança. Aos sete anos, eu já tinha pintor e tela favorita – Rosa e Azul, de Renoir. Não porque reconhecesse a expressão imensa do seu trabalho, mas porque vovó dizia que era eu e minha irmã. A ideia de que ele pudesse saber que viríamos a existir me fazia achá-lo o artista mais sensível do mundo.
Ela, no entanto, nunca me levou às margens do Ipiranga. E das quase dez escolas que estudei também nenhuma promoveu nosso encontro. Ficou o primeiro contato entre o museu e eu (uma candidata à estagiária de 20 anos com frio na barriga e sapatilhas emprestadas) para o dia da entrevista.
E como me senti, subindo a rampinha lateral, foi intimidada. Pelas colunas, balaustradas e folhas de acanto que eu viria a estudar depois. Nunca esqueci essa sensação primeira, que permeou todo meu trabalho como educadora – essa necessidade fundamental da apropriação do espaço.
Conheci gentes incríveis, em carne e osso e em linhas de texto. Bati papos riquíssimos, nas reuniões, no solzinho do café e nas páginas dos livros. Abriram minha cabeça como aquelas fotos modernosas 360 graus.
Encantei-me por uma forma de educar que aproveitava o arregalar dos olhos tímidos que entravam pela roleta, e fiz da minha prioridade deixa-los à vontade na exposição. Museu é lugar de conversar. É lugar de compartilhar olhares. É lugar de estabelecer relações. É lugar de se divertir. De fazer piada, de dar risada. De ter liberdade pra gostar ou não gostar de alguma coisa – sentimento mais legítimo diante de qualquer trabalho. Museu é lugar de estar.
Em cada visita orientada que fazia, pra além da questão da representação nas obras ou da construção cuidadosa de identidade – que rolavam com uma naturalidade deliciosa depois que os alunos se sentiam à vontade – falava sobre a representação e a intencionalidade no próprio espaço. Os objetos expostos, por exemplo: quais são? Por que esses? Por que em cima? Por que embaixo? Por que do lado? Por que iluminado, escuro, alto, escondido, no meio, no canto?
Convenci-me de que Museu só existe em relação dialética com o público, e que sem ele perde toda razão de ser. Apesar de mediar o contato entre eles, meu maior sonho de obsolescência planejada – quase como essas lâmpadas que queimam num par de meses – era que conversassem sozinhos.
Um dos maiores baratos foi poder participar de um movimento que levava ao processo de curadoria esse olhar do visitante. De ser quase a sua advogada na mesa grande que cheirava a café e resistência. De criar, aos pouquinhos, a empatia nos que – há muito versados nos ins and outs da linguagem expositiva – o sub ou superestimava.
Uma das maiores frustrações foi encontrar abafadores nesse canal de escuta. Amargor que minha supervisora dividia e corajosamente nos guiava à frente, centímetro a centímetro. Fundamentamos a prática em teoria, criando um lastro pesado ao qual recorríamos quando o que afirmávamos por experiência era chacoalhado. Escrevemos, a seis mãos, um artigo sobre os nossos esforços, que apresentamos no Simpósio de História Pública (a área mais bonita, se alguém me perguntar). Acho que foi a coisa mais acadêmica que fiz.
Acabei não chegando ao fim do tempo que tinha pra ficar. A vida pra levar me deixava ansiosa, e arranjei um emprego que demandou muito de mim (uma oportunidade dessas engraçadas, das quais a gente espera muito pouco e que acabam abrindo portas maravilhosas).
Com o coração apertado, saí.
Mas que carinho por esse tempo, por essas experiências, por esse trabalho bonito.
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