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das coisas que aprendi com o vô

meu avô nasceu em 1931. ele era quase exatos 60 anos mais velho do que eu, e se foi quando eu não tinha feito ainda nove.

vovô me ensinou uma porção de coisas. a fechar os dedos quando fosse dar a braçada na piscina, e que o picolé de limão da kibon era muito, muito melhor que o da iopa. a gerir com cuidado meus recursos (tinha direito a apenas uma caneca de guaraná e um potinho de fandangos até o fim de pocahontas), e que telas com profundidade são pintadas em camadas. aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas na sua casa do interior. ele e meu pai líderes de torcida enquanto eu pedalava desenfreada até bater a cara no muro. quando o choro passou e o gelo que vovó e mamãe insistiram na minha testa derreteu, pegou a bicicleta que eu estava decidida a nunca mais olhar na vida e me fez montar nela de novo. seus olhos de gato sorriram quando fiz a curva direito, com minha triunfante cara ralada.

já adolescente, quando ouvi meu pai falar dele, sempre me senti um pouco triste por não ter podido continuar a aprender com ele. mas tive a sorte de meu pai ter sido um filho bem atento depois que passou da fase adolescente-chato-gritento-treteiro. era como se ele fosse toda uma enciclopédia de lições de vovô, pronta pra me mostrar o verbete que eu precisava.

quando minha vida sexual começou, anos depois do véio estar me olhando lá de cima (espero que ele não veja tudo tuuuudo), papai me deu de presente uma pérola de sabedoria pra frentex do vô: entre quatro paredes, de livre e comum acordo, não tem nada feio, não tem nada errado, vale tudo. eu aos 16 anos corei, como teria corado se fosse ele a me falar isso. eu mais velha me lembrei disso sempre que quis ser livre.

a essa lição se somou outra de contrapartida: quando você escolher alguém com quem levar a vida, esquece isso de corpinho gostoso - o tesão, com os anos, vai pro saco. escolha alguém que seja boa companhia. (acho que ele foi meio fatalista nessa, ainda acredito ser possível ter os dois).

uma das minhas favoritas veio logo depois da primeira crise em namoro superada. o relacionamento, disse o pai que dizia o vô, é como uma placa de metal bem lisinha. juntos, a gente vai polindo a placa com carinho, com cuidado, com afeto, com palavras e gestos doces. aí ela fica bem bonita e brilhante, dessas que deixam a gente feliz de ver. mas uma palavra dura, uma vacilada, uma mentira, uma cagada, são como riscos na placa, todas elas. alguns são menores e mais leves, e outros bem grandes e fundos. a gente torna a polir a placa, e com o tempo os riscos ficam menos visíveis, talvez meio apagadinhos, mas não somem. não importa o quão brilhante ela volte a ficar. às vezes a gente esquece deles. às vezes a gente lembra e, por amor, finge que não os viu. às vezes pensamos neles dias a fio antes de pegar as flanelas de volta. às vezes precisamos de um tempo pra pensar se vale a pena abrir outra lata de cera.

quis que tivesse vindo uma contrapartida junto dessa também. tipo um manual com "cinco rápidos e fáceis passos para lidar com riscos", ou ainda, best-seller total: "o que fazer quando seu ombro tá meio cansado de polir". mas não veio.

gosto de achar que a pedagogia de vovô pra assuntos do coração não era muito diferente da pra batidas de cara no muro ou caldos na piscina. o ralado sara. a água a gente cospe. o sorriso banguela triunfante fica. seja o que for que cê decidir fazer.

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achei cá esse blog empoeirado, semi-decomposto pelos vermes digitais que o estavam a carcomer. e num esforço quase insano, meio cego, e orientado pelo desejo profundo de poder fazê-lo com gente humana, botei-o a viver de novo. só porque quis. (é, sou dada a vontades de quando em vez). então pega um copo, senta aê. vai, tira o sapato, se avexa não. bora trocar de mundo junto.
Ela segue. Não mais triste, nem mais feliz. Com os olhos acordados de uma criança que percebe o mundo ao qual, agora, pertence. Por vezes ama, ocasionalmente odeia, vez ou outra se entrega à solidão. Dá carinho com a mesma facilidade com que depois o esquece. Respira o dia com a paz agitada de quem sabe a finitude de sua rotinazinha café-com-leite.