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Postagens

das (nem tão) ordinárias ressurreições.

achei cá esse blog empoeirado, semi-decomposto pelos vermes digitais que o estavam a carcomer. e num esforço quase insano, meio cego, e orientado pelo desejo profundo de poder fazê-lo com gente humana, botei-o a viver de novo. só porque quis. (é, sou dada a vontades de quando em vez). então pega um copo, senta aê. vai, tira o sapato, se avexa não. bora trocar de mundo junto.
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Um ano e pouco, dos 15 do SAE-MP

Minha avó, que saía pelo mundo e me levava junto nos ônibus que subiam a Rebouças, soube despertar desde muito cedo o amor por museus no meu coração de criança. Aos sete anos, eu já tinha pintor e tela favorita – Rosa e Azul, de Renoir. Não porque reconhecesse a expressão imensa do seu trabalho, mas porque vovó dizia que era eu e minha irmã. A ideia de que ele pudesse saber que viríamos a existir me fazia achá-lo o artista mais sensível do mundo. Ela, no entanto, nunca me levou às margens do Ipiranga. E das quase dez escolas que estudei também nenhuma promoveu nosso encontro. Ficou o primeiro contato entre o museu e eu (uma candidata à estagiária de 20 anos com frio na barriga e sapatilhas emprestadas) para o dia da entrevista. E como me senti, subindo a rampinha lateral, foi intimidada. Pelas colunas, balaustradas e folhas de acanto que eu viria a estudar depois. Nunca esqueci essa sensação primeira, que permeou todo meu trabalho como educadora – essa necessidade fund...

das coisas que aprendi com o vô

meu avô nasceu em 1931. ele era quase exatos 60 anos mais velho do que eu, e se foi quando eu não tinha feito ainda nove. vovô me ensinou uma porção de coisas. a fechar os dedos quando fosse dar a braçada na piscina, e que o picolé de limão da kibon era muito, muito melhor que o da iopa. a gerir com cuidado meus recursos (tinha direito a apenas uma caneca de guaraná e um potinho de fandangos até o fim de pocahontas), e que telas com profundidade são pintadas em camadas. aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas na sua casa do interior. ele e meu pai líderes de torcida enquanto eu pedalava desenfreada até bater a cara no muro. quando o choro passou e o gelo que vovó e mamãe insistiram na minha testa derreteu, pegou a bicicleta que eu estava decidida a nunca mais olhar na vida e me fez montar nela de novo. seus olhos de gato sorriram quando fiz a curva direito, com minha triunfante cara ralada. já adolescente, quando ouvi meu pai falar dele, sempre me senti um pouco triste por n...

Desencontro

O homem entrou no banheiro do aeroporto. Foi até a pia mais distante e abriu a torneira, deixando que a água gelada jorrasse. Por três vezes levou a água ao rosto. Olhou para baixo, parou. Suas mãos não eram mais as suas. Os dedos longos e gelados moviam-se a seu comando, mas não se lembrava deles. Levantou o rosto molhado para o espelho e o examinou. Pequenas ruguinhas já começavam a se formar nos cantos dos olhos castanhos. Nas têmporas alguns fios brancos já estavam comprometidos a tentar descolorir o negro. Pensou em sorrir para si mesmo, mas sua boca não se curvou. Contentou-se em continuar fitando o querido estranho com o mesmo tom seriamente divertido. A mala surrada jazia imóvel no chão desbotado ao lado da pia. No bolso da frente, um pedacinho de lenço tentava inutilmente escapar, ao qual ele desprende um mero dar de ombros: ‘Que fique onde está’. Voltou lentamente a focar-se. A imagem refletida não coincidia com sua imaginativa imagem de si. Como poderiam ser tão distoantes?...
Gastei uma hora pensando em um verso que a pena (ou o teclado) não quer escrever. No entanto, ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. Minhas próprias palavras parecem muito pouco, empresto as de Drummond.
O tempo só fez acentuar meu encanto por tuas manias e falta (ou excesso) de nexo. Gosto disso em ti, gosto do sexo, da falta de ordem, da simplicidade de sentido, do teu jeito divertido de me querer. O encanto entre nós vai passar - amanhã, ou depois, ou mês que vem. Tu sabes, eu sei. Se não passar em cento e vinte e sete anos, eu é quem vou embora! Vem... vem logo pra cama, antes que a noite acabe.